Pular para o conteúdo principal

    Emissões da Cadeia de Fornecimento: o problema comum entre bancos e grandes compradores

    26 de agosto de 2026
    9 min de leitura
    Uncategorized
    Emissões da Cadeia de Fornecimento: o problema comum entre bancos e grandes compradores


    A maior parte das empresas mede as emissões da cadeia de fornecimento por um método que dá o tamanho do problema, mas não permite agir sobre ele. O caminho para mudar isso já está previsto no GHG Protocol e é o mesmo que os bancos vêm adotando para calcular as emissões da carteira de crédito.

    O banco e o comprador fazem a mesma pergunta

    Quando uma instituição financeira calcula as emissões da carteira de crédito, a régua que diz se o número dela é bom ou ruim não fala sobre a instituição. Fala sobre o dado que chega do cliente.

    Quando uma grande empresa calcula as emissões da cadeia de fornecimento, o movimento é o mesmo. O número dela depende do dado que chega do fornecedor.

    É a mesma pergunta com nomes diferentes. Para o banco, é o cálculo do PCAF (Partnership for Carbon Accounting Financials) e a Categoria 15 do escopo 3 do GHG Protocol, as emissões financiadas. Para a empresa, é a Categoria 1  do escopo 3 do GHG Protocol, bens e serviços comprados. As duas pontas puxam o mesmo dado, da mesma empresa. É sobre esse dado, e sobre o que ele permite ou impede fazer depois, que este texto trata.

    A meta cai sobre o que a empresa menos controla

    Os Escopos 1 e 2 reúnem as emissões da operação própria, aquilo sobre o que a empresa age diretamente. Mesmo a energia comprada, indireta por definição, admite ação: contrato de energia renovável, eficiência, mudança de infraestrutura.

    Para a maior parte dos setores, essa não é a maior parte da conta. O Escopo 3 costuma dominar o inventário, e dentro dele a fatia mais relevante quase sempre é a Categoria 1, a compra de insumos.

    Isso tem uma consequência prática que passa despercebida no momento em que a empresa anuncia um compromisso. Ao assumir uma meta de Escopo 3, ela está assumindo, na prática, uma meta sobre a cadeia de fornecimento. Ou seja, coloca a meta sobre a parte do inventário que menos controla e que é a mais difícil de medir.

    Dois padrões diferentes, a mesma hierarquia

    Imagem1. A hierarquia de qualidade de dado do PCAF e a priorização de métodos do GHG Protocol seguem o mesmo princípio (fonte: Autora com base em PCAF, Global GHG Accounting and Reporting Standard for the Financial Industry; GHG Protocol, Corporate Value Chain (Scope 3) Standard, Categoria 1)

    O PCAF, padrão adotado pelo setor financeiro para emissões financiadas, organiza a qualidade do dado em cinco scores, em ordem de preferência: emissões reportadas pelo tomador, estimativa por atividade física e estimativa por atividade econômica. O score 1 corresponde a emissão reportada e verificada. O score 5, a uma estimativa a partir de dado econômico genérico.

    O GHG Protocol, no padrão de Escopo 3, organiza o cálculo da Categoria 1 em quatro métodos, também em ordem de preferência: dado específico do fornecedor, método híbrido, dado médio por unidade física e estimativa pelo valor gasto.

    É o mesmo desenho. Emissão reportada pelo tomador, no PCAF, corresponde ao inventário do fornecedor, no GHG Protocol. Atividade física corresponde à quantidade comprada multiplicada por um fator médio. Atividade econômica corresponde ao valor gasto multiplicado por um fator setorial.

    Não é coincidência. Os dois padrões foram escritos para resolver o mesmo problema: atribuir a uma organização a emissão de um terceiro sobre o qual ela tem influência comercial, mas não tem controle operacional. O banco exerce essa influência pelo crédito. A grande empresa exerce pela ordem de compra. O princípio é idêntico nos dois casos, dado primário no topo e estimativa na base.

    A consequência prática interessa a quem está na ponta fornecedora. O inventário que o banco precisa para melhorar o score da carteira é o mesmo que o cliente precisa para melhorar a Categoria 1 do inventário dele. Não são dois pedidos, é um só.

    A armadilha do melhor fator possível

    A maioria das empresas hoje calcula a cadeia na base dessa hierarquia, pelo valor gasto em compras ou pela quantidade física comprada com um fator genérico, de base internacional, setorial ou de média nacional.

    E existe uma sequência que se repete quase sempre igual. A empresa calcula pelo gasto, vê que o número é grande e conclui, corretamente, que precisa melhorar. Vai então atrás daquilo que entende por melhorar: o melhor fator de emissão disponível para aquele produto. Procura um fator de emissão genérico de um produto similar em uma base internacional, encontra, aplica, e o cálculo fica de fato mais preciso. Muitas vezes esses fatores genéricos de bases internacionais que não consideram a matriz energética nacional acabam sendo menos precisos do que os próprios fatores setoriais, que foram calculados com base na realidade brasileira. 

    O problema aparece no passo seguinte, quando é hora de traduzir a meta em plano. Com um fator genérico por produto, a emissão só muda se a quantidade comprada mudar. O fator é fixo e não distingue de qual fornecedor a compra veio.

    A partir daí sobram dois caminhos, e os dois são provavelmente inviáveis. O primeiro é comprar menos ou parar de comprar, o que contraria a estratégia do negócio, já que aquele insumo é o produto da empresa. O segundo é exigir que cada fornecedor faça a ACV do produto dele, o que é caro, demorado e não escala. Na maior parte das vezes o fornecedor não fará, seja por falta de equipe, de orçamento ou de incentivo.

    E aí vem a pergunta que interessa: como saber qual dos fornecedores de um mesmo insumo emite menos? Com fator genérico, não há como. Todos têm o mesmo fator. O cálculo não dá visibilidade para a informação necessária para decidir a compra.

    Métodos por gasto e por dado físico têm valor como primeiro passo, para dimensionar o problema e identificar quais fontes são significativas. Mas o limite deles não é de precisão, é de gestão.

    Quatro formas de calcular, lidas como capacidade

    Os métodos de cálculo costumam ser comparados por acurácia. Proponho compará-los por capacidade, ou seja, pelo que cada um permite fazer depois.

    Valor adquirido: O dado já está no ERP e escala sem esforço. Dá a ordem de grandeza e serve para priorizar setores e insumos, mas não diferencia o fornecedor. Inviabiliza a capacidade de gestão por fornecedor.

    Dados físicos com fator médio: Melhora a acurácia, elimina a distorção do preço e continua escalando bem. Mas também não traz a diferenciação por fornecedor: um quilo de algodão é um quilo de algodão, venha de quem vier.

    Inventário do fornecedor: É o primeiro degrau em que dois fornecedores do mesmo produto passam a ter números diferentes. É onde a diferenciação começa a existir. E, ao contrário da ACV, escala, porque o inventário corporativo é feito uma vez por ano e reaproveitado para todos os clientes, para os bancos e para a própria estratégia do fornecedor.

    Pegada de carbono do produto, via ACV: É o padrão-ouro de precisão e o destino desejável para os produtos mais críticos da cadeia. Como estratégia para a cadeia inteira, não fecha: custo e prazo por produto, multiplicados por centenas de itens, inviabilizam o projeto.

    Repare no padrão. Os dois métodos capazes de distinguir um fornecedor do outro são exatamente os dois que abrem espaço para descarbonizar, e os dois que não distinguem são os que não abrem. Não é acaso. Só é possível descarbonizar aquilo que o cálculo consegue diferenciar.

    A escala é menor do que parece

    A primeira objeção sobre esse assunto é previsível: uma empresa com mil fornecedores não vai inventariar mil empresas. Correto, e não precisa.

    Quando se faz o Pareto e se pergunta quantos fornecedores respondem por 80% das emissões da categoria, o número que aparece nos projetos conduzidos pela DEEP fica quase sempre entre 30 e 40 fornecedores, às vezes menos. A concentração varia conforme o setor e a estrutura de compras, mas a ordem de grandeza se repete.

    Trabalhar com um conjunto reduzido de fornecedores, escolhidos por representatividade, deixa de ser um censo e passa a ser um programa de relacionamento. Isso é gerenciável.

    Há ainda um segundo achado que muda a conversa. Na maior parte dos casos, a emissão dominante do fornecedor não está na operação dele, e sim na matéria-prima que ele compra. Quando o comprador conversa com o fornecedor, portanto, a alavanca principal não é a eficiência da fábrica. É a decisão de compra dele. A descarbonização da cadeia é, no fundo, uma conversa de sourcing em cascata.

     

    Fonte: GHG Protocol, Corporate Value Chain (Scope 3) Accounting and Reporting Standard, pág. 78 

    De número para plano

    Há uma coisa que o inventário faz e que nenhum fator de emissão faz: ele não entrega um número, entrega uma lista de fontes. Cada fonte relevante é uma alavanca com custo e retorno próprios, seja troca de matéria-prima, eficiência de processo, substituição de combustível, contratação de energia renovável ou logística. É isso que sustenta uma linha de base confiável, uma meta defensável e um plano que pode ser acompanhado, construído fonte a fonte em vez de prometido como percentual.

    O processo também melhora com o uso. O inventário do fornecedor começa incompleto, quase sempre. Mas, uma vez que ele existe, o fornecedor passa a ter motivo para melhorá-lo, porque quer que uma decisão de compra mais eficiente apareça no número que ele apresenta ao cliente.

    O que ainda não está resolvido

    O movimento que propomos é modesto de propósito: sair da base da hierarquia (a estimativa) e subir um degrau na qualidade do cálculo. Do valor gasto e do dado físico genérico para o inventário do fornecedor. Já rodamos isso como prova de conceito com um grande varejista, justamente para validar essa segunda opção de cálculo, e o resultado confirmou a hipótese. O uso de inventários viabiliza estratégias adicionais de descarbonização porque permite diferenciar fornecedores pelo processo produtivo e pela matéria-prima que empregam.

    Sendo honesta sobre um ponto que ainda não está resolvido, porque se trata de um framework em evolução e não de um produto acabado. Inventário de fornecedor tem um problema de comparabilidade. Um fornecedor pode reportar menos que outro porque deixou uma categoria de fora, e não porque emite menos. Isso é real e não adianta fingir que não é.

    A resposta para esse problema não é esperar o dado perfeito, porque ele não chega. É padronizar um escopo mínimo, verificar e evoluir com o tempo. Foi exatamente esse o caminho do setor financeiro com o PCAF, que começou com a carteira inteira em score 5 e foi subindo.

    O mesmo dado, uma vez

    O banco vai pedir esse dado. O grande cliente vai pedir esse dado. É o mesmo dado. A empresa que estruturar o inventário uma vez responde às duas pontas e ganha uma terceira coisa, que nenhuma delas entrega: um mapa do que ela pode fazer para reduzir.


    Você também pode gostar

    SEJA DEEP

    Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Ao usar nosso site, você concorda com o uso de cookies de acordo com nossa Política de Privacidade.