Quando uma empresa avalia os impactos das mudanças climáticas ou de novas regulações ambientais, normalmente olha primeiro para seus fornecedores diretos. Esse é um avanço importante, pois amplia a análise para além de suas próprias atividades produtivas (escopos 1 e 2). Mas, para avaliar os riscos e oportunidades envolvendo uma mudança de cenário, é insuficiente. Por exemplo, o aumento do preço do cimento pode estar relacionado ao refino de petróleo, enquanto a disponibilidade de um componente metálico pode depender do comportamento de outro setor econômico completamente diferente daquele com o qual a empresa negocia.
A implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), os riscos físicos associados às mudanças climáticas e as exigências trazidas pelas divulgações de sustentabilidade mostram que muitos impactos surgem além do primeiro nível da cadeia de suprimentos. Uma ferramenta pouco explorada pode ajudar nessa análise: a Matriz de Insumo-Produto (MIP), construída pelo IBGE a partir das Tabelas de Recursos e Usos.
As Tabelas de Recursos e Usos mostram como bens e serviços circulam entre os setores econômicos, sendo possível observar quanto foi produzido ou consumido de cada produto por cada atividade em determinado período. A partir dessas tabelas, o IBGE constrói a Matriz de Insumo-Produto, uma representação das relações produtivas entre as atividades econômicas. Em outras palavras, ela mostra quanto cada atividade depende das demais para produzir seus bens e serviços. A importância dessa ferramenta para os estudos econômicos foi reconhecida quando o seu autor ganhou o Nobel de Economia de 1973.
Embora seja tradicionalmente utilizada em estudos econômicos, essa ferramenta também possui aplicações relevantes para análises ESG, inclusive para compreender riscos na cadeia de valor. Até mesmo as empresas inventariantes mais maduras, que já construíram uma relação de reporte de emissões com seus fornecedores, podem se deparar com uma questão relevante: mas e os fornecedores dos meus fornecedores? E é nesse ponto que as Tabelas de Recursos e Usos e a Matriz de Insumo-Produto se tornam uma ferramenta estratégica.
Imagine uma construtora que não será regulada diretamente pelo Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Ainda assim, seus principais fornecedores — como cimento, aço e alumínio — estão entre os primeiros setores afetados. Como consequência, precisarão investir em tecnologias mais eficientes, adaptar processos produtivos e cumprir novas exigências regulatórias. Como consequência, parte desses custos tende a ser repassada aos clientes, aumentando o custo dos insumos utilizados pela construtora, mesmo não tendo sido diretamente regulada.
Essa análise não interessa apenas à própria construtora. Bancos, investidores, seguradoras e demais stakeholders também precisam compreender como mudanças regulatórias podem afetar o desempenho financeiro da empresa — muitas vezes sem acesso aos seus dados internos.
Esses agentes podem realizar a análise a partir da Tabela 2 de Recursos e Usos, que descreve o consumo intermediário das atividades. Nela é possível verificar que, no ranking de insumos mais consumidos pela indústria de construção em 2021, os produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos, ocupam o 2º lugar. Assim, um aumento do preço dos produtos de metal, decorrente da implementação do SBCE, se mostra um fator de risco para as constutoras, com potencial aumento no custo operacional. Essa informação os analistas da construtora já obtinham, mas os stakeholders externos ainda não.
Mas existe um segundo nível de impacto: os fornecedores desses fornecedores. A partir da matriz de insumo-produto, que descreve os fluxos intersetoriais de bens e serviços, é construído o modelo de insumo-produto. Este, por sua vez, permite conhecer os efeitos diretos e indiretos do aumento na demanda de determinado setor. Isto é, indica o quanto deverá ser produzido para sustentar um aumento da demanda de cada setor, revelando dependências que nem sempre são visíveis nas relações comerciais diretas.
Considerando o exemplo da construtora, o setor de Refino de petróleo e coquerias é o 4º mais acionado para sustentar o aumento da produção da construção civil, seguido pela Fabricação de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos, e da Produção de ferro gusa/ferroligas, siderurgia e tubos de aço sem costura. Assim, a matriz insumo-produto demonstra que, dos 6 setores mais demandados para que a construção civil consiga aumentar sua produção, 3 estão entre os primeiros setores afetados pelo SBCE. Dessa forma, o aumento no custo operacional dessas atividades — e consequentemente em seus preços — é um risco regulatório indireto para a construção civil.
O mesmo raciocínio vale para riscos físicos associados às mudanças climáticas. Imagine uma seca severa afetando um produto que sua empresa sequer utiliza diretamente. À primeira vista, esse evento parece irrelevante. Entretanto, caso esse produto seja um insumo importante para um fornecedor estratégico, os efeitos podem se propagar pela cadeia de valor, alterando custos, prazos de entrega e disponibilidade de matérias-primas.
Essa mesma lógica também pode ser utilizada para identificar oportunidades. Empresas capazes de antecipar mudanças em suas cadeias produtivas podem rever estratégias de compras, diversificar fornecedores e desenvolver planos de adaptação antes que os impactos se materializem.
Mais do que uma ferramenta econômica, a Matriz de Insumo-Produto representa uma forma diferente de analisar cadeias de valor. Ela permite ampliar o olhar sobre riscos indiretos, identificar dependências entre setores e complementar avaliações utilizadas em relatórios de sustentabilidade e processos de gestão de riscos.
Também contribui para demonstrar como riscos e oportunidades de sustentabilidade podem se traduzir em impactos financeiros, fortalecendo análises que apoiam decisões estratégicas e aumentam a resiliência econômica dos negócios.



