A Qualidade dos Inventários de Emissões

A Qualidade dos Inventários de Emissões

Por Jorge Gripp e Arthur Covatti

 

A elaboração de inventários de emissões de gases do efeito estufa (GEE) é o primeiro passo para que uma empresa possa estabelecer estratégias de descarbonização e contribuir para o combate às mudanças climáticas. A realização de inventários também permite visualizar oportunidades de novos negócios no mercado de carbono, atrair investimentos e planejar processos mais eficientes.

 

Figura 1 – Exemplo da visão geral de um inventário de gases de efeito estufa.

 

É natural que surja a pergunta: quão correto está o cálculo do inventário de emissões de uma empresa? Qual a qualidade desse inventário?

Na nossa jornada na DEEP, muitas vezes encontramos inventários de emissões supostamente de alta qualidade (auditados por uma Big4 e com selo ouro), mas que, em uma análise mais profunda, apresentam erros significativos.

Trabalhamos de forma sistemática para trazer a resposta mais precisa para esta questão, e o que encontramos, após termos analisados centenas de inventários de emissões, é que a qualidade decorre de uma série de camadas, conforme mostrado na figura abaixo:

Figura 2 – Camadas de análise da precisão do cálculo de inventários de emissões.

 

A importância da completude das informações

 

Uma revelação impressionante: o problema mais basilar,  que precisa ser atacado primeiro para que se tenha um inventário de emissões de boa qualidade é a COMPLETUDE das informações.

O erro mais comum que encontramos diz respeito à ausência de algumas categorias. Na maior parte dos inventários, a categoria mais relevante não reportada é do escopo 3 (emissões indiretas), relacionada à cadeia de fornecedores, à cadeia logística ou até mesmo ao fim de vida dos produtos. 

Outro ponto relevante em relação à completude é a abrangência. Muitas vezes, subsidiárias (partes, linhas de negócio ou filiais) importantes de uma empresa não são incluídas no inventário, o que pode gerar uma grande distorção na análise. Um exemplo seria uma corporação reportar as emissões do seu escritório na Faria Lima, mas não de algumas unidades industriais-chave que estão embaixo de uma filial, Joint Venture, subsidiária, ou algo do tipo. 

 

Erros na coleta dos dados
 

Por exemplo, por um erro na extração de dados do ERP da empresa para um cálculo manual ou no processo de eliminação de dados duplicados, muitas vezes ocorre a exclusão acidental de um centro de custo, de uma filial ou de algum item importante. 

Nesse sentido, um erro que vimos em diversos inventários feitos de maneira manual é a exclusão acidental de itens de notas fiscais (pensando se tratar de itens duplicados) ou a inclusão de notas fiscais canceladas na extração, por exemplo, de dados de volume de consumo de combustível.

Há ainda a possibilidade de erros de coleta ou processamento das informações, sejam elas dados, premissas de cálculo, chaves (por exemplo, trocar se um carro foi abastecido com etanol ou gasolina), quantidades (se abasteceu 10 ou 100 litros) ou unidades de medida (volume em litros ou metros cúbicos).

 

Cálculo e fatores 

 

Erros relacionados ao CÁLCULO são os terceiros mais comuns. De fato, em um cálculo manual, é usual encontrarmos erros nas fórmulas de uma planilha. Em empresas mais maduras e consultorias mais estruturadas, esse problema é muito menos frequente.

Para além de erros, incluímos nesse “tier” os diferentes modelos (Calculadoras) disponíveis para um mesmo cálculo de emissões – por exemplo, um modelo mais ou menos preciso para se calcular deslocamento casa/trabalho. 

Em quarto lugar para a qualidade de um inventário, estão os problemas ligados a FATORES –  por exemplo, fatores de Análise de Ciclo de Vida (ACV) versus a avaliação da economia por setores produtivos e os Modelos de Insumo-Produto.

 

Sistemas de scoring 

 

Na DEEP, estamos desenvolvendo uma pesquisa sobre um sistema de scoring para todos os métodos de cálculo disponíveis pelo GHG, de forma análoga ao que já faz o PCAF para a categoria de investimentos do escopo 3.  

Esse scoring e uma preocupação com a melhoria na qualidade de cálculo, entretanto, só fazem sentido quando se tem uma confiança muito grande na COMPLETUDE do inventário e na qualidade dos DADOS DE ENTRADA. 

Um cálculo muito preciso (usando um fator ACV) mas com um dado de entrada errado, por exemplo, estará absolutamente errado; já um cálculo menos preciso (usando um fator financeiro) mas com um dado de entrada correto, estará correto (apesar de eventualmente pouco preciso). 

Por fim, estando todas as camadas inferiores corretamente endereçadas (na “pirâmide de Maslow do inventário"), é possível se fazer uma mensuração de incertezas do inventário. Esse passo garante um número dentro de uma margem de incertezas – o que pode ser bastante interessante, principalmente quando já se for possível ter uma confiança muito grande relacionada a COMPLETUDE, DADOS DE ENTRADA, CÁLCULOS e FATORES. 

 

O escopo 3: um desafio a mais
 

Uma reflexão adicional é que, de modo geral, as emissões de uma empresa se distribuem de forma bastante desigual, com uma ou duas categorias resultando em mais de 80% do inventário. Como uma empresa é geralmente um elo de uma cadeia de valor, quase sempre a quantidade das emissões que não estão sob o seu controle operacional (escopo 3) é maior do que a das que estão (escopos 1 e 2).

Aí surge um desafio duplo para a Completude das informações: as maiores emissões estão fora das empresas (escopo 3), maior a dificuldade de se obter informações completas. E os  fornecedores dessas empresas passam pelo mesmo desafio de saber as informações na sua própria cadeia de fornecedores.

As dificuldades em relação à completude fazem com que uma grande parte dos inventários das empresas ainda seja de baixa qualidade. Ou seja, há uma grande diferença (gap) entre as emissões totais reais e as emissões reportadas, como mostrado na figura abaixo:

 

Figura 3 – Jornada da empresa relatora inicia por um desafio de completude seguido do desafio da descarbonização.

 

Próximos passos na jornada

 

Embora as organizações reportem os inventários com a expectativa de mostrar a redução de suas emissões, o valor deles ainda deve crescer por alguns anos.

A maioria das empresas está em um passo inicial da jornada, ainda na identificação das fontes de emissão (de escopos 1, 2 e 3), cujo foco está em diminuir o gap entre as emissões reais e as reportadas. Aí sim, passada essa etapa, os inventários com maior qualidade refletirão os esforços de descarbonização das empresas.

Neste artigo, apresentamos a visão que temos sobre esse assunto. 

A sequência dessas etapas – 1. COMPLETUDE, 2. DADOS DE ENTRADA, 3. CALCULADORAS, 4. FATORES e 5. ANÁLISE DE ERROS – é o que consideramos a melhor prática de mercado, que buscamos incluir nos nossos produtos e em cada implantação dos nossos clientes.

 

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