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    Escopo 3 com fatores de emissão setoriais

    2 de abril de 2025
    4 min de leitura
    DEEP EXPERTS
    Escopo 3 com fatores de emissão setoriais

    Escrito por Mauro Zackiewicz

    Medir e reportar as emissões indiretas com qualidade é um dos maiores desafios para a elaboração de inventários de carbono nas empresas.

    Na falta de fatores de emissão específicos para itens como bens e serviços adquiridos de terceiros, a melhor prática é utilizar fatores de emissão aproximados. A escolha desses fatores é uma decisão técnica e deve levar em consideração a similaridade entre o fator de emissão disponível e o tipo específico de bem ou serviço comprado, cujas emissões precisam ser estimadas.

    Por exemplo, as emissões da fabricação de um saco de cimento de um determinado fabricante podem ser desconhecidas porque ele não mede nem publica inventários de carbono. Entretanto, outro fabricante que utiliza tecnologia similar pode divulgar esses dados. Nesse caso, utilizar esse fator de emissão pode ser uma boa aproximação.

    Em situações mais desfavoráveis, pode ser necessário recorrer a fatores de emissão publicados por empresas de outros países, cujas tecnologias e fontes de energia podem ser distintas. Em certas situações, os únicos dados disponíveis podem ser antigos ou baseados em metodologias obsoletas. E pode acontecer de simplesmente não haver informações disponíveis ou confiáveis.

    Para esses cenários, os fatores de emissão setoriais surgem como um recurso valioso.

    O que são fatores de emissão setoriais?

    Os fatores setoriais são valores médios de emissão obtidos de modo agregado. Para cada setor, contabilizam-se todas as emissões de um período e divide-se pelo total produzido no mesmo intervalo. O fator resultante é uma representação aproximada das emissões médias daquele setor.

    O GHG Protocol recomenda que fatores setoriais sejam utilizados como último recurso na estimativa das emissões do Escopo 3. Isso porque é preferível estimar emissões com fatores setoriais do que não reportá-las. A ausência de fatores específicos não deve ser usada como justificativa para deixar lacunas no inventário. Os fatores setoriais são uma ferramenta importante para garantir um relatório mais completo e preciso.

    Esses fatores são extraídos a partir de matrizes de insumo-produto, grandes bases de dados agregados que detalham os fluxos de compra e venda entre setores econômicos. Existem matrizes globais mantidas por centros de pesquisa e organismos internacionais, como a Exiobase, a WIOD, a EORA e a ICIO. Essas matrizes contêm dados de produção e emissões de gases de efeito estufa para vários países e setores, permitindo a extração de fatores de emissão setoriais.

    Os desafios dos fatores setoriais no Brasil

    Sabemos que os fatores de emissão setoriais brasileiros derivados dessas matrizes globais apresentam limitações, principalmente por três razões:

    Harmonização de dados: As matrizes utilizam dados brasileiros que precisam ser compatibilizados com bases internacionais. Como os dados econômicos nacionais seguem padrões diferentes, ocorre uma série de adaptações e projeções que podem comprometer a precisão das informações.

    Defasagem temporal: Os dados que alimentam essas matrizes são relativamente antigos. No caso da Exiobase, por exemplo, ainda se baseia no CNAE 1.0, vigente no Brasil até 2010. As atualizações utilizam técnicas de nowcasting e projeções, em vez de revisões sistemáticas, o que pode limitar a precisão dos fatores mais recentes.

    Exclusão das emissões por mudança no uso da terra: Em muitas matrizes globais, as emissões por desmatamento e mudança no uso da terra não são atribuídas aos setores produtivos. Para países onde essas emissões são irrelevantes, essa abordagem é aceitável. No Brasil, no entanto, isso representa um problema significativo, pois as mudanças no uso da terra respondem por uma parcela expressiva das emissões totais.

    Nossa abordagem na DEEP

    Para superar essas limitações, na DEEP desenvolvemos fatores de emissão setoriais a partir de dados nacionais, atribuindo a cada setor econômico as emissões reportadas no Quarto Inventário Nacional.

    Dessa forma, conseguimos calcular fatores para os 68 setores e 128 produtos da matriz de insumo-produto brasileira, utilizando as Contas Nacionais do IBGE e cobrindo a série histórica de 2010 até o presente. Garantimos 100% de consistência com os dados do Inventário Nacional, incluindo as emissões por desmatamento.

    Esses fatores podem ser utilizados para estimar emissões de escopo 1, 2 e 3 na ausência de dados específicos. Além disso, a matriz insumo-produto nos permite:

    1 - Rastreamento da cadeia de suprimentos: Podemos calcular fatores de emissão totais do escopo 3, considerando as emissões diretas e indiretas de toda a cadeia produtiva.

    2 - Análise de emissões downstream: Mapear para onde vão emissões de escopo 3, o que viabiliza insights valiosos para estratégias de descarbonização.

    3 - Simulação de cenários: O modelo permite estudos prospectivos sobre impactos econômicos e sociais de diferentes trajetórias de redução de emissões.

    A elaboração de inventários de emissões de carbono requer equilíbrio entre rigor técnico e viabilidade operacional. A utilização de fatores de emissão setoriais é uma solução pragmática para lidar com a indisponibilidade de dados específicos, garantindo maior transparência e confiabilidade nos relatórios. Ao adaptar metodologias globais à realidade brasileira, conseguimos oferecer um instrumento mais preciso para empresas comprometidas com a gestão climática e a transição para uma economia de baixo carbono.

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