Escrito por Julia Biscaia Zamoner, Gerente de Relacionamento e Estratégia ESG
O debate a respeito das mudanças climáticas e suas implicações está cada vez mais presente em nosso dia a dia, e com razão. A temperatura média global tem aumentado gradativamente desde a Revolução Industrial, e em 2024 ultrapassou o marco de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, limite estabelecido pelo Acordo de Paris em 2015, na tentativa de evitar desastres climáticos ainda mais graves.
Nesse sentido, muito se discute sobre a urgência da redução de emissões de gases de efeito estufa, através do uso de combustíveis não fósseis, de fontes energéticas renováveis e da redução do desmatamento, por exemplo, todas medidas extremamente importantes no combate às mudanças climáticas, sem dúvida alguma. Por outro lado, contudo, - ainda - pouco se fala do papel do Oceano nesse quebra cabeça. Nesse momento, é natural que surja a pergunta: qual a relação dele com tudo isso?
Apesar de o dividirmos no que chamamos de bacias oceânicas - como Atlântico, Pacífico, Índico -, o Oceano é um único corpo d’água interconectado que cobre cerca de 71% da superfície da Terra, compreende aproximadamente 97% de toda a água do planeta e produz mais de 50% de todo o oxigênio que respiramos. A cada duas respirações que fazemos, uma vem do Oceano. E, embora muitas vezes ele seja lembrado apenas pela biodiversidade que abriga, o Oceano nada mais é do que o maior regulador climático do planeta, exercendo papel fundamental na temperatura global.
Sumidouro de dióxido de carbono
O Oceano absorve cerca de 30% de todo o dióxido de carbono (CO₂) disponível na atmosfera, contribuindo para o controle do aumento da concentração desse gás e, consequentemente, para o controle do efeito estufa. Esse processo se dá tanto pelos organismos marinhos que utilizam o CO₂ para fotossíntese, quanto pela interface Oceano-atmosfera, na tentativa de equilibrar a concentração desse gás nos dois compartimentos. Ecossistemas costeiros, como os manguezais, também são extremamente importantes nesse processo, sequestrando duas vezes mais CO₂ do que florestas tropicais.
Potente absorvedor de calor
Além de contribuir com a captura do CO₂, o Oceano é capaz de absorver 90% do excesso de calor da atmosfera. Esse calor é absorvido pelas camadas superficiais, especialmente nas regiões equatoriais e tropicais, e redistribuído através das correntes oceânicas para latitudes mais altas do globo. Um exemplo é a Corrente do Golfo, que leva águas quentes do Caribe em direção ao Atlântico Norte, promovendo climas mais amenos em países da América do Norte e Europa Ocidental.
Regulador do ciclo hidrológico
O Oceano também desempenha papel importante nos padrões de chuvas ao redor do globo. A maior parte do vapor da atmosfera é proveniente da evaporação que ocorre na superfície do Oceano, a qual é transportada por correntes atmosféricas e precipita sobre os continentes, alimentando rios e aquíferos.
Essa capacidade reguladora do Oceano contribui para amortecer os efeitos imediatos do aquecimento global e, sem ela, as mudanças climáticas certamente seriam muito mais rápidas e intensas. Todavia, a contínua absorção de calor e CO₂ está ultrapassando a capacidade de suporte dos compartimentos marinhos.
E qual o efeito disso? Na prática, um Oceano mais quente e saturado absorve menos calor e CO₂, e consequentemente tem menor capacidade de mitigação das mudanças climáticas. Além disso, o aumento da temperatura do Oceano como um todo enfraquece a circulação das correntes oceânicas e a distribuição de calor entre as regiões do globo, contribuindo para a ocorrência de extremos em diferentes localidades: regiões tropicais tendem a aquecer mais, enquanto altas latitudes tendem a experienciar temperaturas ainda mais baixas.
Um oceano aquecido também evapora uma quantidade maior de água. Esse processo, aliado a uma atmosfera igualmente mais quente e com maior capacidade de retenção de vapor d’água, resulta em períodos prolongados de seca, até que a atmosfera esteja saturada e, consequentemente, ocasione chuvas torrenciais. A maior temperatura e circulação de ar decorrente da evaporação na superfície do Oceano contribui também para a intensificação de furacões. É importante mencionar que fenômenos como El Niño e La Niña, que também influenciam fortemente padrões de chuvas, são ocasionados por anomalias na temperatura da superfície do Oceano Pacífico equatorial, e são intensificados ainda mais pelas mudanças climáticas.
Temos experienciado as consequências destes processos na forma de eventos extremos com cada vez mais frequência. Os prolongados períodos de seca na Amazônia, as fortes chuvas nas regiões sul e sudeste do país e as ondas de calor por todo o Brasil são reflexo do colapso desse sistema, e tem impacto direto na saúde e segurança da população.
O Oceano é peça chave no combate às mudanças climáticas e não à toa passou a fazer parte, ainda que bastante recentemente, da pauta climática internacional. Em novembro de 2022, a COP27, no Egito, formalizou a criação do Ocean Pavilion, um espaço dentro da conferência totalmente voltado para o debate da relação Oceano x Clima. Neste ano de 2025, o Brasil será sede da COP30, e não há oportunidade melhor para reforçar esse tema. Com cerca de 8 mil quilômetros de costa e alguns milhões de quilômetros quadrados de área oceânica sob sua jurisdição, nosso país tem um enorme potencial de ação. A inclusão de medidas para conservação do Oceano e de ecossistemas costeiros nas estratégias de mitigação das mudanças climáticas é de grande importância, afinal, um Oceano saudável tem um potencial de contribuição para a estabilidade climática muito maior - sem falar nas possibilidades de energia renovável, como energia de ondas e maremotriz.



